No último dia 12 de maio, conversamos em uma transmissão ao vivo com Ana Paula, estudante do 7º semestre de Letras na Universidade de São Paulo (USP) e militante do coletivo Rebeldia e do PSTU. Ana Paula esteve na linha de frente da recente ocupação do prédio da reitoria e compartilhou conosco os bastidores do movimento estudantil, a precarização vivida no campus e os detalhes da truculenta ação policial ocorrida na madrugada do Dia das Mães.
Por que os estudantes da USP fazem greve?
Para quem acompanha de fora, a pergunta "por que estudante faz greve?" é comum. Ana Paula resgata o papel histórico do movimento estudantil brasileiro desde a ditadura militar e pontua que o perfil das universidades públicas mudou graças às cotas. Hoje, a maior parte dos estudantes que se mobilizam precisa conciliar os estudos com o trabalho em São Paulo, uma das cidades mais caras do país.
A principal bandeira da atual paralisação é a permanência estudantil. Atualmente, o Programa de Apoio à Permanência Estudantil (PAPE) oferece um auxílio de R$ 885 — valor que a reitoria tentou reajustar em irrisórios R$ 27 para o auxílio integral e R$ 5 para quem reside no campus, o que os estudantes consideraram um deboche. O movimento exige que o benefício seja equiparado ao salário mínimo paulista, algo financeiramente viável visto que a USP é a estadual paulista que recebe o maior repasse de verbas do governo, superando a Unicamp e a Unesp (onde os auxílios chegam a R$ 1.100 e R$ 1.200, respectivamente).
O Sucateamento e a Realidade dos Campi
A estudante relatou que a infraestrutura voltada para os alunos de humanas e para a moradia estudantil (CRUSP) está sufocada. Enquanto os prédios da própria reitoria ostentam ótimas condições, os blocos dos estudantes enfrentam problemas crônicos como:
Prédios caindo aos pedaços, infiltrações e mofo.
Fiação exposta e problemas elétricos.
Falta de água recorrente (o campus chegou a ficar uma semana sem água após a privatização da Sabesp).
Falta de contratação e reposição de professores.
Outro ponto crítico são os Restaurantes Universitários (bandejões). Dos restaurantes do campus Butantã, quase todos foram privatizados, resultando em precarização do trabalho dos funcionários e queda drástica na qualidade da comida, com relatos recentes de larvas e mofo nas refeições. Uma das pautas da greve é a estatização desses serviços. Além disso, o movimento cobra demandas históricas como a implementação de cotas trans e o vestibular indígena.
A Ocupação e o Conflito na Madrugada do Dia das Mães
A ocupação do prédio da reitoria começou na quinta-feira, 7 de maio, como uma resposta direta ao fechamento arbitrário dos canais de diálogo por parte do reitor. Segundo Ana Paula, os estudantes se organizaram de forma democrática através de Grupos de Trabalho (GTs) para cuidar da limpeza, segurança, alimentação e cultura do espaço.
O cenário mudou drasticamente na madrugada de sábado para domingo. Sem que houvesse uma ordem judicial formal de reintegração de posse emitida pela universidade, a Polícia Militar invadiu o local por volta das 4h da manhã.
"Assim que saí da barraca, vi que foi formado um corredor polonês de policiais com cassetetes, bombas e gás lacrimogênio para reprimir os estudantes que estavam saindo. Eles iam batendo com o cacetete e xingando", relatou Ana Paula.
Apesar de órgãos oficiais declararem que não houve feridos, a estudante desmentiu a versão: dezenas de alunos precisaram de atendimento médico, incluindo uma jovem que teve o braço quebrado, um estudante com o nariz aberto e outro com o pulso luxado. Quatro estudantes foram detidos no ato e encaminhados ao 7º DP na Lapa, sendo liberados horas depois após pressão dos advogados e do movimento que se concentrou na porta da delegacia.
O efeito reverso: A mobilização ganha força
A violência policial, que para muitos professores ecoou os "tempos sombrios da ditadura militar", acabou gerando o efeito oposto ao desejado pelas autoridades. Em vez de recuar, o movimento estudantil ganhou ainda mais apoio popular e unificação.
Na segunda-feira subsequente, um ato massivo partiu da Praça da República em direção à Faculdade de Medicina da USP. Mesmo diante de provocações de figuras de extrema-direita no início da manifestação e do uso de spray de pimenta pela polícia, milhares de pessoas marcharam unificando a voz dos estudantes com a dos professores municipais e trabalhadores metroviários.
O que vem pela frente?
A greve da USP continua por tempo indeterminado, sendo avaliada dia a dia através das assembleias de base. O próximo grande marco do calendário está agendado para o dia 20 de maio, com um ato unificado das três universidades estaduais (USP, Unicamp e Unesp) que sairá do Largo da Batata em direção ao Palácio dos Bandeirantes, protestando contra o projeto de precarização e privatizações do governo estadual.
Para acompanhar as atualizações oficiais do movimento, os estudantes disponibilizam as redes do DCE Livre da USP (@dceusp) e do coletivo Rebeldia (@rebeldiasp).
Confira a entrevista completa e todos os detalhes do relato no canal do YouTube
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