No último dia 20 de março, o TV Papo Aberto recebeu uma convidada cuja história se confunde com a própria luta da classe trabalhadora no Brasil: Vera Lúcia, operária sapateira, cientista social e pré-candidata ao governo de São Paulo pelo PSTU.
Em um bate-papo profundo e sem roteiros engessados, Vera compartilhou suas origens, suas críticas ao sistema atual e suas propostas para um estado que, embora seja o mais rico da federação, ainda convive com abismos sociais profundos.
Da Lida na Fábrica à Militância Política
Vera Lúcia relembrou suas raízes no sertão de Pernambuco e sua criação em Sergipe. Vinda de uma família pobre de 10 irmãos, começou a trabalhar aos 14 anos como faxineira e garçonete, mas foi no chão de fábrica, como costureira de sapatos, que sua consciência política despertou.
Ela detalhou como a precarização, o assédio e a falta de direitos na indústria calçadista a levaram a liderar greves históricas no final da década de 80, culminando na fundação de sindicatos e na conquista de melhores condições para os operários.
A Ruptura com o PT e a Identidade do PSTU
Questionada sobre sua trajetória partidária, Vera explicou por que rompeu com o PT em 1992 para fundar o PSTU. Segundo ela, o partido se afastou das bases operárias para se tornar um administrador da ordem capitalista.
Para Vera, o PSTU se diferencia por não aceitar financiamento de grandes empresários e por manter um programa que visa a ruptura com o sistema, em vez de apenas "conciliar interesses".
Raça, Gênero e Classe: Lutas Indissociáveis
Como a primeira mulher negra a concorrer à presidência em uma chapa 100% negra e nordestina, Vera trouxe uma análise potente sobre como o machismo e o racismo são usados pelo sistema para dividir os trabalhadores.
"O Estado, as religiões, os homens... todo mundo se acha no direito de ser proprietário do corpo da mulher, menos nós", afirmou ao criticar a falta de investimento em políticas de combate ao feminicídio.
Propostas para São Paulo: Privatização e Segurança
A pré-candidata foi enfática ao criticar a gestão de Tarcísio de Freitas, especialmente no que diz respeito às privatizações da Sabesp e das linhas ferroviárias, além da atuação da Enel. Para Vera, os serviços essenciais devem ser estatais e controlados diretamente por quem neles trabalha e pela população que os utiliza.
No campo da Segurança Pública, ela defendeu a desmilitarização da PM e uma abordagem comunitária, criticando o "encarceramento em massa" e a conivência do Estado com o grande crime organizado que opera fora das periferias.
Uma Alternativa Socialista
Ao final, Vera Lúcia deixou uma mensagem de esperança e organização. Ela defende que a mudança real não virá apenas pelas urnas, mas pela ocupação das ruas e pelo controle operário da produção. Sua campanha propõe o fim dos privilégios políticos, defendendo que governantes tenham o mesmo padrão de vida e salário de um professor da rede pública.
Este texto foi adaptado da live transmitida em 20 de março de 2026.
